A fase da criação é uma das mais emocionantes, mas pode ser uma grande dor de cabeça!


Etapa II - A junção dos progenitores


Um conselho que dou a todos os iniciados neste tipo de actividades (e eu sou um deles) é que moderem o seu entusiasmo. O facto de nos parecer que as coisas estão prontas nem sempre corresponde à realidade. Assim, devemos dar algum tempo, parar o que estamos a fazer e ir apanhar um pouco de ar fresco antes de iniciar algum passo mais importante. E, se forem cegos entusiastas como eu, vai ser nessa altura que se lembrarão de algo que era suposto ter sido feito e que efectivamente o não foi. Este procedimento simples evitará o stress, quer o nosso pois mexer no aquário já com os peixes lá dentro enerva-me terminantemente, quer o dos pobres animais que não gostam de ser chocalhados. Só quando tivermos a certeza de que tudo está a postos e depois de verificar várias vezes a temperatura é que introduziremos os futuros papás. Não esquecer também de ligar a luz de presença, que permanecerá acesa durante as primeiras semanas.

Introdução do macho

O primeiro a ser colocado no contentor ou aquário de criação irá ser o macho. Depois de preparado e de colocada a água respectiva (pode ser introduzida água directamente da torneira que deixaremos repousar dois a três dias antes de instalar o peixe; é imediatamente antes de pôr o macho que devemos colocar os tratamentos, principalmente o anti-fungos), deixamos a temperatura estabilizar. Devemos confirmar se o macho estava num meio com a temperatura igual ou muito próxima para evitar stresses desnecessários.
O peixe será colocado no futuro berçário pouco antes de introduzir a fêmea, isto porque quanto mais tempo ele ali se encontrar mais irá conspurcar a água aos descendentes. Mais uma vez lembro que o Betta deve ter sido bem alimentado antes da transferência, uma vez que irá passar os próximos 6 a 10 dias sem se alimentar. Deve ser transportado/transferido de preferência num copo e não numa rede, uma vez que da utilização desta última resultam, na maior parte das vezes, ferimentos e perda de escamas ou o rompimento das barbatanas. Deve então dar-se algumas horas ao peixe para se ambientar. Não esquecer também de colocar na superfície da água uma plataforma flutuante de esferovite (como já referido) para que o animal possa iniciar a construção do ninho.

Introdução da fêmea

A fêmea nunca deve ser inserida no aquário de criação directamente em contacto com o macho, uma vez que este poderá atacá-la de imediato e chegar mesmo a matá-la. Deve então ser introduzida no mesmo dentro de um pequeno frasco de vidro ou, no caso do dispositivo que eu já descrevi acima, separada por uma parede amovível de plástico ou acrílico transparente. Esta última tem a enorme vantagem de não fazer variar muito o nível da água quando é introduzida ou removida, evitando-se assim estragos no ninho de bolhas feito pelo macho.
Após a introdução da parceira, o macho tentará atacá-la através do recipiente transparente, o que nos mostra que fizemos bem em deixá-los separados. Ao fim de alguns minutos (às vezes horas), o macho deixará de investir contra a fêmea e dedicar-se-á (se o não tiver feito antes) à construção do respectivo ninho de bolhas. Quando este estiver concluido e a fêmea se encontra receptiva (exibindo as linhas horizontais e aproximando-se cada vez mais da divisória que a separa do macho), podemos então remover a separação entre os dois peixinhos.

Fase do acasalamento

Esta é uma fase em que se deve ter muito cuidado. Isto porque por um lado, há sempre o perigo do macho maltratar a fêmea (ou, em casos mais raros, a fêmea maltratar o parceiro de acasalamento). Por outro lado, corre-se sempre o risco de assustar os animais, levando-os a abandonar os ovos ou mesmo a comê-los. Deve então manter-se o casal em observação mas com o cuidado de não deixar que os peixes notem a nossa presença. O simples abrir de uma porta pode perturbar os animais. A tarefa complica-se quando se optou por um aquário de vidro ou outro material transparente.
O que eu fiz foi colocar o contentor num canto sossegado do quarto, escondi-o atrás de um caixote alto de papelão e, quando os ia espreitar, abria sempre a porta com muito cuidado para evitar o barulho e a própria deslocação do ar. Mantive também a tampa do recipiente sempre com uma fresta aberta (mas não muito!), de forma a poder espreitar para o interior do mesmo e, assim, acompanhar o desenrolar da situação.

A cópula

O acasalamento dos peixes é um processo muito interessante e complexo, o que poderá causar um certo entusiamo da nossa parte e levar-nos a cometer certas imprudências. Devemos sempre lembrar-nos que o nosso interesse é obter crias e não apenas observar a coreografia da parada nupcial dos Betta.
Durante esta fase, o que o macho faz é nadar com muito entusiasmo debaixo do seu ninho de bolhas, agitando freneticamente as barbatanas peitorais, após o que se aproxima da fêmea (que inicialmente se encontrará a um canto, assustada) e se exibe, com frenesim. Volta a nadar para debaixo do ninho e repete todo o processo. A fêmea, entusiamada, nada agora também para debaixo do amontoado de bolhas e começa a nadar agitadamente em volta do macho. É nesta altura que os dois ensaiam uma série de "abraços" nupciais, dos quais não resulta ainda a postura de ovos. Isto pode por vezes deixar-nos um pouco ansiosos e frustrados, mas devemos moderar a nossa ansiedade e dar mais tempo aos animais. O processo continua (por vezes com algum tempo de intervalo entre os ensaios) até que a determinada altura a fêmea inicia a postura dos ovos. Também durante os "abraços" nupciais se observa um outro acontecimento curioso: o frenesim dos peixes e o seu empenho nesta tarefa é tal que por vezes entram em extâse, ficando os dois a pairar na água como se estivessem mortos. Mas rapidamente o macho desperta e inicia a captura dos ovos, um a um, depositando-os depois à superfície, no seu ninho. Por vezes a fêmea pode ajudá-lo nesta tarefa, pelo que não deveremos ficar assustados se a virmos apanhar também a sua dose de ovos.
Todo este processo pode demorar horas ou mesmo um dia (talvez até um pouco mais) pelo que não deveremos ter pressa em retirar a fêmea de perto do macho. Fi-lo várias vezes e rapidamente me arrependi, quando constatei que aquela continuou a pôr ovos já no seu aquário. Outra situação que observei, e que veio contrariar tudo o que tinha lido na altura na Internet, é que a retirada precoce da fêmea do contentor pode levar a que o macho rapidamente se desinteresse pelo ninho e pelos ovos nele alojados. Isto foi fatal nas minhas primeiras duas ou três tentativas de criação. Decidi então prolongar a estadia da mesma, mantendo-a à vista do macho, separada pelo tal pedaço de plástico transparente (daí eu aconselhar vivamente a sua utilização). Só a separamos do macho quando aquele a ataca violentamente, forçando-a a esconder-se nos cantos ou por debaixo do aquecedor ou outro objecto do contentor. Deve ter-se em atenção que por vezes a fêmea se coloca numa situação de resguardo entre diferentes posturas, de forma a poder descansar um pouco, pelo que nesta altura se deve vigiar regularmente o casal, de forma a não interromper antecipadamente o acasalamento.




Quando se junta o macho com a fêmea, este persegue-a por todo o aquário, primeiro violentamente e depois um pouco mais meiguinho, até que ela acede em deslocar-se para debaixo do ninho.

Os "abraços" sucedem-se até que a fêmea começa a pôr ovos. A fecundação ocorre na água, no momento da postura.

A fase dos abraços pode prolongar-se por muito tempo, chegando a durar 24 horas ou mais.

A saída da fêmea

A saída da fêmea do contentor é sempre uma altura de grande ansiedade para nós, de algum stress para os peixes e sobretudo de grande risco para a operação de criação. A variação brusca do nível da água e a ondulação ou vibração da mesma devidas à introdução da mão ou de um objecto de forma a capturar o peixe pode ser fatal para o ninho de bolhas. Por outro lado, stressar o macho nesta altura não é uma boa ideia. Também não se deve destapar durante muito tempo o contentor, pois as variações bruscas de temperatura irão danificar os ovos, tornando-os inviáveis.
Desta forma, este procedimento deve ser rápido mas feito com muito sangue-frio e muita calma. Eu, por exemplo, usei um pequeno copo de plástico transparente ou as mãos (em qualquer das situações, sempre bem lavados para evitar conspurcar a água) e tive a vantagem do separador de plástico evitar a ondulação da água do lado do macho. Como a fêmea já havia sido separada e se encontrava num espaço exíguo, tornou-se muito fácil retirá-la, provando a minha teoria de que compensa (e muito!) a planificação com antecedência.
A fêmea deve ser colocada no seu aquário de origem, com tratamento antifúngico (Fungistop) e antibacteriano (Punctol), de forma a tratá-la na eventualidade de ter sido ferida ou perdido escamas.
O macho deve ser mantido em observação durante as horas seguintes.

O que fazer no caso do macho abandonar o ninho

Situações haverá em que, devido a todas estas movimentações, o macho abandonará os ovos ou chegará mesmo a comê-los. Nestas condições será muito difícil fazer sobreviver os alevinos mas não impossível. O que se ve fazer é retirar imediatamente o progenitor (cuidado para ter a certeza de que ele realmente abandonou a prole) e baixar imediatamente o nível da água para dois a três centímetros de altura, no máximo (talvez um pouco mais, dependendo da altura do aquecedor, que deverá estar situado junto ao fundo para estas eventualidades), sem aspirar os ovos nesse processo. Também deve ser colocado uma pedra difusora para manter a oxigenção da água, de forma a que os ovos não "asfixiem" no fundo. Se não tiver sido colocado um tratamento na água, deverá ser adicionado nesta altura um antifúngico para evitar a decomposição dos ovos.
Depois, é cruzar os dedos esperar dois a três dias para verificar se os ovos eclodem, apesar de todas as contrariedades.

O desenvolvimento da progénie

No caso do macho se manter a tomar conta da sua ninhada, os próximos dois dias são para o animal uma verdadeira azáfama. Noite e dia, o pequeno peixe providenciará os cuidados necessários ao desenvolvimento dos filhotes, nomeadamente apanhando e devolvendo ao ninho todos os ovos que cairem, renovando as bolhas, realojando o ninho em função da sua degeneração ou da temperatura superficial, enfim todas as razões pelas quais recomendo também a manutenção de uma luz de presença, o que permitirá assegurar que nenhum dos ovos ficará no fundo mais tempo do que o necessário para ser encontrado (relembra-se que a pressão e a menor oxigenação levam a que os ovos que caiam no fundo se estraguem).
Ao fim de dois a três dias, verificar-se-á que o ninho aparenta começar a ficar sujo com algo que parece cinza de lareira. São, na verdade, os pequenos olhos dos peixes que, no seu conjunto, escurecem ligeiramente o ninho de bolhas. O macho, agora mais eufórico, continua a apanhar os pequenos alevinos à medida que cairem. Por vezes, a tarefa é tão complicada que ele não terá tempo de refazer ou reparar o ninho, pelo que este poderá ficar reduzido a um pequeno monte de bolhas do qual penderão inúmeras caudas dos filhotes. Não se deve, de forma alguma, importunar nesta altura o Betta macho, pois o stress levará a que coma toda a sua descendência. Também relembro que, contrariamente ao qua dizem alguns bloguistas, nunca se deve alimentá-lo nesta altura, uma vez que ele poderá confundir crias com alimento.
Os alevinos, nos primeiros dias de vida, são muito toscos e não conseguem nadar direito, entre outras coisas devido ao peso do saco vitelino (reserva alimentar) que carregam com eles. Nadam assim muito mal, na vertical, caindo com muita frequência para o fundo do aquário. O macho, incansável, irá recolocá-los então no ninho até ao momento em que eles começam a nadar na horizontal. Será nesta altura que deverá ser retirado. Mais uma vez se recomenda muito cuidado e, também mais uma vez, se recomenda a utilização do tal compartimento do nosso "berçário".
O macho deverá ser colocado no seu aquário individual e alimentado com alguma abundância, se bem que isto não signifique que se empanturre o animal logo de uma vez. O alimento deve ser dado gradualmente e ao longo do dia. Uma vez retirado o progenitor de perto das crias, não deve ser, em caso algum, recolocado junto das mesmas, pois isso implicaria decididamente a morte de todas elas.


Da cópula resulta a formação de um ninho de bolhas, "carregado" de lindos ovinhos brancos arredondados.

Por vezes, o nosso entusiasmo (neste caso, o meu) leva a situações de desperdício: na foto à esquerda, o resultado da separação precoce de uma fêmea e a postura dos restantes ovos num ninho feito por ela.

O macho é incansável nos cuidados que dispensa à progénie, podendo estar vários dias sem comer e sem descansar. Por vezes, morrem após o desenvolvimento das crias.

Etapa III - A criação dos alevins

Retirado o macho, poderíamos pensar que os problemas tinham acabado. Parecendo que não, foram dias de stress e muita ansiedade os que anteciparam esta fase do nosso processo. Mas é agora que as coisas se complicam. Não porque seja muito dificil manter os pequenos peixinhos vivos e com saúde, mas porque começaram os dias de muito trabalho.
Para começar, devemos instalar uma pedra difusora (ou ligar a que já lá se encontrava, se tivermos sido previdentes) a libertar algumas bolhas, muito poucas, apenas as suficientes para evitar que se forme uma película isoladora à superfície, o que levaria à asfixia dos animais. Também se deverá ter cuidado com a tampa do contentor, pois as variações de temperatura levarão à malformação dos labirintos respiratórios em formação (que só estarão formados por completo ao fim de alguns meses).

A alimentação

Os pequenos alevinos, porque nasceram com uma reserva de alimento (o saco vitelino permanece no intestino) podem sobreviver sem se alimentar durante os primeiros dois a três dias. Isto dá-nos uma certa vantagem pois permite que preparemos, se já não o havíamos feito, os alimentos com que os iremos sustentar. Desta forma, poderemos preparar os diferentes materiais com que iremos nutrir os nossos pequenotes e que são muito diversificados: larvas do vinagre, da farinha, coração de animais triturado, etc. Pela minha parte, utilizei apenas cinco tipos de alimentos:

- Infusórios de palha seca;
- Artemia líquida, da JBL;
- Alimento em pó/granulado: Atison´s Betta Starter da Ocean Nutrition;
- Alimento em pó: Alimento básico para alevinos Basix da Nutrafin;
- Artémia recém-eclodida.

Estes alimentos não foram dados de qualquer maneira, mas sim por uma determinada ordem que tem a ver fundamentalmente com o tamanho dos peixes e a sua capacidade de movimentação pelo aquário. Desta forma, a ordem pela qual os alimentei foi a seguinte:

Primeiros quinze dias

Comecei por alimentar os pequenotes com a infusão de palha. Esta foi preparada de forma muito simples: numa caixa de DVD de 50 unidades (a parte transparente) coloquei palha seca, obtida no campo, adicionei água descansada e alguma água do rio, ocupando 2/3 do volume do recipiente. Deixei este material numa prateleira a decômpor e fui-lhe adicionando as folhas velhas e secas das plantas lá de casa (sem tratamento de qualquer espécie). Ao fim de mais ou menos três dias, o preparado tem uma cor amarelada, forma-se uma película esbranquiçada à superfície (bactérias) e começa a cheirar um pouco mal. Isso não é um problema, significa antes que os protozoários, nomeadamente as Paramécias (que nos interessam) estão a desenvolver-se bem. É com a água assim obtida, e usando uma pipeta de plástico, que se vai alimentando os peixinhos. E não se deve alimentar apenas três vezes ao dia, como alguns dizem, mas várias vezes. E não se assustem se a água cheirar mal, isso é normal. Só não deverá é ficar tão suja que não se veja o fundo ou que se formem grandes colónias de fungos ou de bactérias. Esta alimentação será fornecida em exclusivo até ao final da segunda semana, mais ou menos.
Complemento esta alimentação, a partir desta altura, com Artémia líquida, alternando as duas fontes de alimentação ou dando metade de cada.

Entre os quinze dias e o mês

Durante este período, vou reduzindo a infusão de paramécias (ou mantenho mais uns dias se verificar que os alevinos continuam muito pequenos, mas como complemento) e aumento a artémia líquida, que passo a alternar com o Betta starter (alimento em pó). É necessário cuidado com este último alimento porque afunda com muita facilidade. Se isto é bom, porque é avistado pelos peixes que se encontram a várias profundidades, tem o inconveniente de, se usado em excesso, se acumular no fundo e apodrecer. Isto terá que ser compensado com a aspiração do fundo (por sifonamento) e mudança de água mais frequentes (a tratar mais à frente). Para evitar ter de estar sempre a fazer a limpeza, faz-se cada refeição em etapas, adicionando-se a mesma quantidade mas repartida por várias vezes, com intervalos para dar tempo aos peixes de comer sem desperdiçar.
A partir da terceira semana, reduzir-se-á gradualmente a artémia líquida e continua-se com o Betta starter. Nesta altura deveremos começar a reduzir o número de refeições para três ou quatro por dia (deve estar-se atento ao facto de que estes peixes nunca poderão passar fome; se tal acontecer, os animais não recuperam, mesmo se aumentarmos as doses fornecidas).

A partir do mês

Deixa-se, nesta altura, de fornecer apenas o Betta starter e começa-se a usar a Artémia recém-eclodida, alternando as refeições. Fazem-se agora três refeiçoes principais por dia: eu dava-lhes artémia de manhã, Betta starter no início da tarde e novamente artémia à noite. Não se deve abusar da Artémia, uma vez que os peixes a comerão até rebentar. Se for dada em demasia, iremos ver os animais ter dificuldades em nadar, parecendo um tanto ou quanto trôpegos.
A determinada altura (cerca dos dois meses), os peixes terão dificuldade em comer o Betta starter, pelo que se deverá substitui-lo pela comida em pó da Nutrafin (basicamente são flocos de pequeno tamanho). Por volta dos três meses, poderão começar a comer os flocos dos peixes adultos mas em pequena quantidade. A artémia recém-eclodida pode manter-se até ser demasiado pequena para os peixes a verem, altura em que deverá ser substituída pela artémia congelada, oferecida apenas algumas vezes por semana.


Filhotes em desenvolvimento nos ovos (foto da esquerda) e progenitor protegendo a prole, podendo ver-se as caudas dos alevinos penduradas do ninho de bolhas (à direita).

Peixes acabados de nascer - alguns permanecem na vertical (foto da esquerda) e ao fim de cerca de dois dias, nadando na horizontal (à direita).

Alevinos com cinco e quinze dias, respectivamente.

Peixinhos com 1 e 2 meses, respectivamente.

Os meus peixes no berçário, com cerca de um mês de idade.

Ainda os meus peixes, na foto da esquerda com cerca de 1 mês e na da direita já com 3 meses, aproximadamente.

Os meus Bettinhas, agora já com cerca de 3 meses e com muito mau feitio.

O mau aspecto dos infusórios (à direita) e a sua distribuição com o auxílio de uma pipeta (foto da esquerda).

As artémias - importante fonte alimentar dos alevinos

As artémias são pequenos crustáceos provenientes de lagos salgados como o existente nos Estados Unidos chamado Salt Lake (perto de Salt Lake City). Estes lagos salgados, restos de oceanos extintos cuja água terá ficado retida no interior de continentes devido a certos fenómenos geológicos, são extremamente salgados, não se encontrando neles peixes e outros animais que não toleram salinidade excessiva. No entanto, possuem vida e as artémias são uma prova disso.
As artémias vivem portanto nestes lagos, alimentando-se fundamentalmente de algas e, a determinada altura, produzem inúmeros ovos, de cor acastanhada e arredondados, que flutuam na superfície. Formam então grandes manchas acastanhadas, visíveis do ar. Estes ovos, arrastados pelos ventos e pela ondulação da água, podem ser depositados nas margens do lago, ficando literalmente a seco. Podem permanecer aí meses ou mesmo anos. No entanto, quando a chuva os arrasta de novo para a massa de água ou o nível desta aumenta, eles hidratam e iniciam a sua eclosão, que ocorre, em situações favoráveis, em 24 a 36 horas. O Homem, tendo descoberto esta fonte nutritiva de inestimável valor para a criação de peixes em geral, iniciou a sua exploração em termos industriais. Assim, na altura da desova, recolhem nos lagos grandes quantidades de ovos com redes próprias, após o que os lavam, secam (por vezes, mesmo ao sol) e embalam para distribuição mundial. Actualmente, é muito fácil encontrar no mercado vários produtos, processados ou não, derivados das artémias: ovos para eclosão, ovos se casca para alimentar directamente os peixes, artémias congeladas, artémia líquida, entre muitos outros.

Preparação do material para a eclosão das artémias

Existem também no mercado vários dispositivos com a finalidade de promover a eclosão dos ovos de artémia. No entanto, devido ao seu elevado preço e complexidade, eu aconselho a utilização de um processo artesanal, muito barato e fácil de usar. Os materiais necessários são:

- Ovos de artémia prontos a eclodir (eu uso o Novo Temia da JBL, em frascos de 18 gramas/40 ml que permite a preparação de várias doses);

- Uma garrafa de sumo em plástico transparente, de 2 litros de capacidade;

- Uma bomba de aeração;

- Pedras difusoras, tubo de borracha para as mesmas e um conjunto de válvulas com pelo menos duas saídas;

- Sal de cozinha não iodado;

- Garrafa de plástico de 250 ml;

- Pedaço de pano crú (de lençol, por exemplo);

- Pipeta de plático ou conta-gotas comprido;

- Lanterna de mão (vulgarmente designada por pilha - opcional);

- Caixa/Cake de 100 DVDs (opcional);

Parece muito material mas é tudo barato e de fácil aquisição. Começamos então por cortar a garrafa de pástico de 2 litros em duas metades, uma maior que a outra, de forma que a parte que tem a tampa entre (voltada ao contrário) na base da garrafa, que será também a base do nosso dispositivo. O material assim preparado deverá ser estável para não tombar com facilidade. Se não tiver conseguido arranjar o cake de DVDs, agora é só aplicar uma pedra difusora neste artefacto e temos a nossa "chocadeira" pronta. Mas, se o conseguimos obter, devemos então certificar-nos de que este conjunto (base da garrafa e o topo da mesma, nela encaixado em posição invertida) cabe na parte de plástico transparente do cake, de forma a que se consiga colocar a respectiva base, que funcionará como tampa. Nesta base, depois de retirarmos eixo central de suporte dos DVDs (normalmente cortando-o rente, se bem que em algumas marcas ele se desenrosque, o que nos facilita a tarefa), fazemos um ou dois furos, lateralmente ao orifício maior, com um diâmetro suficiente para passar um tubo de borracha para a pedra difusora. O outro furo será para permitir que o ar saia, sem criar pressão no interior, apenas no caso de se conseguir fechar o orifício central ou se não quiser cortar completamente o eixo de apoio dos DVDs. Introduzimos então o tal tubo de borracha num desses furos, aplicamos a pedra difusora e temos o nosso aparelho de eclosão das artémias quase pronto. Só faltará marcar a parte que levará a água (portanto, a metade superior da garrafa de 2 litros já cortada), com uma caneta de acetato, em função dos diferentes niveis possíveis. Começaremos por exemplo nos 300 ml e acabaremos nos 450 ou 500 ml, fazendo a graduação do frasco. Para tal, utilizaremos um medidor de volumes (comum na maior parte das cozinhas) e, enchendo por exemplo com medidas certas de água, vamos enchendo gradualmente a garrafa. Começamos com uma porção de 300 ml e marcamos o exterior com a caneta de acetato na linha de água. Depois adicionamos mais 50 ml ou 100 ml (conforme queiramos a nossa graduação mais ou menos pormenorizada) e vamos marcando, não esquecendo de colocar junto de cada linha o volume respectivo.

Como eclodir as artémias

No nosso aparelho de eclosão colocaremos então, depois de todo o material devidamente lavado ou mesmo desinfectado com álcool, a água, o sal e os ovos das artémias. Para uma grande quantidade de peixes (por exemplo, cerca de 200, como eu tinha para alimentar), pode começar-se por usar 450 a 500 ml de água descansada, uma colher de chá cheia de sal e o equivalente a uma colher (à medida que os peixes crescem passará para colher e meia e depois para duas) de café de ovos. Tapa-se então com a base do cake de DVDs, à qual se encontra acoplada a pedra difusora e respectivo tubo, e liga-se este último à bomba difusora.
Como os peixes têm de ser alimentados diariamente e as artémias são mais nutritivas quando acabadas de eclodir, não convém fazer muita quantidade de cada vez. Por esses motivos, e porque as artémias eclodem a cada 24 a 36 horas (dependendo da temperatura ambiente) devem ter-se dois dispositivos idênticos que se vão revezando. Assim, se colocarmos num dia uma dose de artémias a eclodir, no outro dia pela mesma hora ou o mais tardar no dia seguinte, deve iniciar-se outra eclosão. Assim garantimos um constante fornecimento de artémias vivas e nutritivas aos nossos peixes.
Este processo de eclosão deve ser encarado com muita responsabilidade, uma vez que da manutenção desta linha de produção depende a sobrevivência da maior parte dos peixinhos. Poderemos ter alguma forma de alimentação alternativa mas a falta de artémias recém-nascidas poderá pôr em causa o desenvolvimento saudável dos alevinos e perdermos assim grande parte da ninhada.


A garrafa de 2 litros deve ser cortada (com muito cuidado) em duas partes, de tal forma que uma sirva de base à outra, tornando o conjunto estável. As marcações dependem da quantidade de artémias que pretenda produzir.

A base do cake de DVDs ou de CDs irá constituir, depois de devidamente preparada, a tampa do nosso aparelho de eclosão. Na que eu fiz, o eixo central era amovível, constituindo uma vantagem, já que não era necessário remover a mesma por completo.

Preparadas as peças, o passo seguinte será montar o aparelho. Trata-se de um sistema improvisado mas muito funcional.

O aparelho, no final, deverá ter este aspecto. Ao lado, o esquema inicial que fiz a partir de um outro aparelho, de origem japonesa, que encontrei no youtube.

Para a produção das artémias, montamos o aparelho e então adicionamos a água, o sal e as artémias.

Fecha-se então a tampa, faz-se a conexão à bomba "oxigenadora" e liga-se a mesma à corrente. E le voilá! É só esperar pelas nossas artémias. As válvulas servem para podermos ligar dois aparelhos destes em simultâneo à mesma bomba.

Alguns aspectos particulares da montagem deste equipamento: a ligação à bomba de ar e a forma como deve ficar, no final, a tampa.

Como fornecer as artémias aos peixes

Para melhor fornecer as artémias aos peixes, ainda falta preparar o nosso sistema de lavagem daqueles crustáceos.
Cortamos então uma garrafa de água em plástico em três metades: uma que constituirá um pequeno copo - a da base; uma que irá ser o nosso filtro - a do topo ou gargalo; e uma terceira, mais pequena, que deitaremos fora (eventualmente, e se tiver paciência, pode fazer um apoio para o filtro, como eu fiz, colocado dentro do copo/base da garrafa e que está ilustrado numa das fotos mais abaixo). Desenroscamos a tampa da garrafinha e, com muito cuidado, cortamos na parte lisa da mesma um orifício em forma de quadrado ou mesmo redondo, o que será um pouco mais difícil. Voltamos a atarrachar a tampa, mas interpomos um pedaço de pano crú entre esta e o gargalo, de modo a que fique bem preso e, de preferência, esticado. Temos então o nosso filtro/funil pronto a funcionar.
No momento de servir as artémias, adicionamos água ao copo, colocamos lá dentro o filtro e, com a ajuda de uma pipeta, vamos colher as artémias no nosso aparelho de eclosão. Para tal, devemos tê-lo desligado um pouco antes, entre um e cinco minutos, para que as cascas venham para o cimo e as artémias se acumulem no fundo. Pipetam-se então os crustáceos, colocam-se no filtro e lavam-se com água fresca. Só então, e usando ainda a pipeta, se vão distribuindo os mesmos pelos peixes. As artémias não devem ficar nunca fora de água, pois caso isso aconteça podem morrer e deixam então de ser tão atractivas para os peixes.
Deve ter-se muito cuidado para não esquecer de ligar imediatamente a bomba de ar, uma vez que as artémias morrerão sem oxigénio ao fim de poucos minutos (por vezes, ao fim de dez a qinze minutos).
A lanterna que aparece na figura serve para nos ajudar a ver melhor o sítio, dentro da incubadora, onde se acumularam as artémias, facilitando a sua recolha com a pipeta.
Em algumas lojas da especialidade existem à venda (não com muita frequência, mas podem comprar-se online) vitaminas para se adicionar às artémias antes de serem fornecidas aos alevinos. Não é obrigatório o seu uso, mas ajudará a criar os peixes mais rapidamente e de forma mais saudável.



Como se vê, uma simples garrafinha pode ser um excelente auxílio na árdua tarefa de alimentar os Betta.

O dispositivo no final, pronto a usar, e o esquema que lhe deu origem.

Mudanças de água e higiene dos alevinos

Durante os primeiros dez a quinze dias após o nascimento dos pequenos peixes não devem ser feitas quaiquer mudanças de água. Isto porque, sendo os peixes muitíssimo pequenos, qualquer alteração nas propriedades físicas (temperatura, por exemplo) ou químicas (pH, concentração de solutos, etc.) pode ser-lhes fatal. Por outro lado, a mudança de água poderia estar a diminuir a concentração de microrganismos que constituem a sua alimentação nesta altura, problema agravado pelo facto destes animais não procurarem o alimento mas simplesmente esperarem que ele lhes passe à frente.
Só a partir do décimo ao décimo quinto dia se devem então inciar as mudanças parciais de água. Começa-se por substituir uma porção muito pequena de água (vinte a vinte e cinco por cento) todos os dias, depois (por volta das três semanas) dia-sim dia-não. Por volta do mês, pode então começar-se a substituir quantidades cada vez maiores de água. Por volta do segundo mês, as mudanças poderão começar a ser feitas com maior quantidade de água e apenas uma a duas vezes por semana. Embora se diga que os peixes gostam do maior número de mudanças de água possíveis, isto nem sempre é verdade, uma vez que se trata de um processo que muito os stressa. Há que ver, no entanto, que se a água se sujar em demasia e rapidamente (se fornecermos, por exemplo, comida a mais ou se a concentração de peixes for grande), se devem fazer mudas de água com mais frequência.

Devem ter-se, no entanto, alguns cuidados:

- deve garantir-se que a temperatura da água adicionada é a mesma que aquela em que os peixes se encontravam inicialmente.

- também as propriedades químicas da água devem ser iguais, pelo que se deve usar água sempre da mesma origem.

- as mudanças devem ser feitas muito gradualmente (quer a saída quer a reposição) para não stressar os peixes e também para que as mudanças eventuais de temperatura, de pH, entre outras propriedades, se faça o mais lentamente possível.

- deve também aproveitar-se esta fase para aspirar o fundo do aquário, removendo os resíduos da alimentação e os próprios dejectos dos peixes. Esta actividade (mudança de água) tem de ser feita para um recipiente, de forma a evitar-se a perda de peixes que serão, inevitavelmente aspirados.

- toda e qualquer mudança deve ser sempre feita com água à qual se adicionaram os tratamentos já referidos e nas quantidades indicadas.



A manutenção dos peixes até à sua independência - a grande "DOR DE CABEÇA"

Após a criação com sucesso de uma ninhada de Bettas, e quando poderíamos pensar que o pior já tinha passado, eis que começam os nossos maiores problemas. Tendo em consideração que uma fêmea de tamanho médio pode realizar uma postura que irá até cerca de 300 ovos e que, mesmo que morra meia dúzia de peixes ou mais durante as primeiras fases, poderá sobreviver a grande maioria dos alevinos. Isto não seria problemático se estivessemos a falar de Guppies ou outra qualquer espécie que viva em cardumes. A questão aqui é que os Betta, principalmente os machos, a partir dos 3 meses aproximadamente (quando começam a adquirir as suas belas cores e barbatanas mais compridas) não toleram os outros indivíduos da sua espécie, fêmeas incluídas. Deve-se por isso, chegando a uma determinada altura (por volta do mês, mais coisa menos coisa) dividir o nosso cardume em dois ou três contentores. Quando finalmente, e mesmo num cardume pequeno, eles se começam a degladiar, teremos então que os separar e colocar em recipientes individuais. Aqui surgem dois problemas principais: onde os colocar e como assegurar que se mantêm os animais aquecidos como até ali.
O primeiro problema é fácil de resolver: entra-se em contacto com um café ou um restaurante e pede-se, com muita delicadeza, se nos guardam algumas garrafinhas, sejam elas de plástico ou de vidro, mas de tamanho pequeno, como garrafas de água ou de certos sumos e refrigerantes. Convém que tenham espaço suficiente para albergar um peixe e um gargalo suficientemente largo para facilitar a alimentação e a limpeza. As de vidro são sempre preferíveis, uma vez que não têm tanta tendência para flutuar. Devem também ser estreitas o suficiente para não ocupar muito espaço.
A segunda parte da questão - o aquecimento - resolve-se facilmente colocando as tais garrafinhas dentro de um contentor no fundo do qual instalamos um aquecedor/termostáto.
Assim que tivermos as garrafinhas cheias de água nova sem cloro e aquecida à mesma temperatura do "berçário", começamos então a transferência dos peixes. Relembro uma vez mais que não se devem usar as redes de malha pois podem magoar os pequenos peixes. Usa-se preferencialmente um pequeno copo ou outro recipiente sem bordos cortantes.

A manutenção da saúde dos peixes

Os peixes assim colocados devem continuar a ser alimentados e a água mudada com frequência, mas agora teremos que usar de outros cuidados.
Primeiro, devemos ter o cuidado de não sobrealimentar os peixes. Comida em excesso num recipiente diminuto significará obrigatoriamente a alteração da água, com todos os problemas que daí advirão para a saúde dos peixes. Deve então fornecer-se pouco alimento de cada vez e várias vezes por dia (três ou quatro, no máximo). Em caso de fornecimento excessivo de alimento, deve-se fazer imediatamente a aspiração do frasco/mudança de água.
As mudanças de água deverão ser também mais frequentes (não devemos esquecer que o peixe produz excreções que alteram a qualidade da água, bem como as suas fezes), mas apenas parciais,para que não se stresse tanto os animais.
A alimentação deverá continuar a ser constituída por flocos e artémias, fornecidas alternadamente. Maior atenção se deve dar ao fornecimento de artémias pois, quando em excesso, são de difícil digestão e afectam gravemente os peixes.
O tratamento da água pode agora ser dispensado na maior parte das mudas, embora de vez em quando deva ser aplicado como já descrito.



Após a separação em frascos pequenos, estes podem ser mantidos quentes, mediante a utilização de um "banho-maria". Um contentor cheio de água e um aquecedor/termostáto serão o suficiente.

O grande problema é que um só contentor não vai chegar. E se os machos forem muitos, a coisa complica-se!

Pormenor da forma como organizei os meus "berçários". A mesinha de plástico do meu filho, a colecção de caixas de transporte desmontáveis e a mesa da camilha foram de grande utilidade, mas uma simples prateleira ou estante serviria para o mesmo efeito. Deve sempre salvaguardar-se o espaço suficiente para as tarefas de manutenção.

Embora não muito espaçosos, os frascos de vidro serão o suficiente para esta fase do desenvolvimento dos peixes.

Os peixinhos, com quatro meses e meio, apresentam já algum do seu futuro esplendor.

A transparência dos frascos é essencial para a confirmação periódica do bem-estar dos peixes. Barbatanas coladas ao corpo, movimentos descoordenados, dificuldades respiratórias ou períodos longos de imobilidade ou falta de apetite são sintomas de doença ou manutenção mal feita. Um dos problemas pode ser os choques térmicos durante as mudanças de água ou o excesso de artémias.

Um belo exemplar com cores muito claras.

Embora tenham dado muito trabalho, foi com pesar que me desfiz de toda a criação.
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